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Maroon 5 celebra sua história com show grandioso em São Paulo

Ygor Monroe

Existe uma diferença considerável entre ter uma coleção de músicas conhecidas e saber transformá-la em um espetáculo. O Maroon 5 chegou ao Nubank Parque, em São Paulo, na última terça-feira, 8 de setembro, carregando mais de duas décadas de sucessos e uma quantidade de canções imediatamente reconhecíveis que poucas bandas de sua geração conseguiram acumular. O desafio, portanto, não estava em convencer o público da importância daquele repertório, mas em encontrar uma maneira de fazê-lo continuar vibrante sobre o palco. Foi justamente nesse ponto que a apresentação paulista encontrou sua maior força.

Maroon 5 celebra sua história com show grandioso em São Paulo - Foto: @bootswallace
Maroon 5 celebra sua história com show grandioso em São Paulo – Foto: @bootswallace

Parte da turnê “Love Is Like World Tour” e realizada poucos dias antes da passagem da banda pelo Rock in Rio, a apresentação mostrou um Maroon 5 muito mais interessante ao vivo do que algumas de suas produções mais recentes poderiam sugerir. Se ao longo dos anos o grupo direcionou sua discografia cada vez mais para estruturas essencialmente pop, o palco devolve às músicas uma presença instrumental bastante evidente. As guitarras ganham espaço, a bateria aparece com mais impacto e os arranjos encontram uma dimensão orgânica que modifica consideravelmente a experiência das gravações.

Essa característica foi fundamental para impedir que o show se transformasse simplesmente em uma reprodução de sucessos. Há uma banda efetivamente tocando e interessada em ocupar o palco como banda, algo que pode parecer óbvio, mas se torna particularmente importante diante de um catálogo que incorporou cada vez mais elementos eletrônicos e produções orientadas ao pop radiofônico. Em São Paulo, músicas construídas para funcionar imediatamente encontraram arranjos maiores, guitarras mais presentes e uma energia que justificava a dimensão do espetáculo.

Adam Levine continua sendo o centro inevitável dessa engrenagem. Sua presença conduz praticamente todos os movimentos da apresentação, seja caminhando pela extensa passarela, conversando com o público ou simplesmente reconhecendo o momento exato em que deve entregar determinada música para que milhares de pessoas assumam os vocais. Existe nele uma consciência bastante clara sobre o tamanho que essas composições adquiriram ao longo dos anos. Em vez de disputar espaço com o público, Levine frequentemente permite que os refrões façam o trabalho.

Essa relação apareceu com força em músicas como “This Love”, “She Will Be Loved”, “Makes Me Wonder”, “Girls Like You” e “Sugar”. São canções de períodos diferentes, mas que encontram uma característica em comum dentro do espetáculo: basta uma introdução para que sejam reconhecidas. O grande triunfo do repertório do Maroon 5 está justamente nessa sucessão quase absurda de músicas que parecem ter permanecido circulando permanentemente na cultura popular.

O risco de uma apresentação construída sobre tantos sucessos seria cair facilmente em uma espécie de jukebox luxuosa. O Maroon 5 consegue escapar parcialmente dessa armadilha porque entende que não basta empilhar músicas conhecidas. O repertório é organizado para alternar momentos expansivos e passagens mais intimistas, enquanto a produção acompanha essa movimentação sem tentar ocupar um protagonismo que pertence às canções.

Visualmente, o espetáculo abraça a escala do Nubank Parque. Telões, iluminação e efeitos pirotécnicos ampliam os principais momentos sem transformar a apresentação em uma demonstração gratuita de tecnologia. Há grandiosidade, mas ela funciona principalmente como extensão da música. Quando o show precisa crescer, a estrutura acompanha. Quando precisa diminuir, existe espaço para que o palco respire.

É nesse segundo movimento que “Memories” encontra um dos momentos mais delicados da noite. Enquanto a música era executada, o telão apresentou fotografias de familiares e amigos dos integrantes que morreram, transformando uma composição já carregada emocionalmente em uma homenagem diretamente ligada à história pessoal do grupo. Levine falou sobre a importância da canção, e a resposta coletiva do público criou um raro instante em que a dimensão da arena pareceu diminuir.

Outro acerto esteve na maneira como o vocalista dividiu parte do protagonismo com seus companheiros. Levine apresentou individualmente os integrantes e abriu espaço para que a formação aparecesse para além da figura de seu frontman. A presença de PJ Morton ganhou atenção especial com “Heavy”, composição do tecladista interpretada ao lado de Levine. É uma escolha que ajuda a lembrar que, apesar de toda a concentração midiática em torno do cantor, o funcionamento do Maroon 5 sobre o palco depende justamente da química entre seus músicos.

A relação com o público brasileiro também ocupou espaço importante durante a apresentação. Levine voltou a demonstrar seu carinho pelo país, chegou a afirmar que o Brasil está entre seus lugares favoritos para tocar e recebeu objetos enviados pela plateia. Em um desses momentos, vestiu uma bandeira brasileira entregue por um fã. Em outro, colocou uma peça de roupa recebida do público. Poderia facilmente parecer um protocolo repetido de turnê, mas a espontaneidade com que essas interações aconteceram ajudou a estabelecer proximidade em um espetáculo de proporções gigantescas.

E proporção é algo que o Maroon 5 conhece muito bem. A banda compreende que algumas músicas simplesmente pedem uma resposta coletiva e não tenta complicar aquilo que funciona pela própria simplicidade. “Girls Like You” e “Moves Like Jagger” conduziram a apresentação para uma reta final praticamente impossível de permanecer estático, transformando a arena em uma enorme pista de dança.

O bis encontrou ainda uma solução visual eficiente. Depois de um breve blecaute, o som de moedas caindo em um telefone público antecipou “Payphone”, utilizando uma referência imediatamente associada à música antes mesmo de a banda retomá-la. “Sugar” ficou responsável pelo encerramento, uma escolha previsível justamente porque poucas músicas do catálogo poderiam cumprir melhor essa função. O refrão coletivo, acompanhado pela dimensão visual da produção, entregou o tipo de final que um espetáculo dessa escala exige.

Há também algo curioso na forma como o tempo reorganizou a identidade do Maroon 5. A banda que surgiu no começo dos anos 2000 mudou consideravelmente, atravessou tendências, incorporou diferentes fórmulas de produção e se tornou uma gigantesca máquina de sucessos populares. No palco, porém, parte dessas diferentes versões consegue coexistir de maneira surpreendentemente natural. O show encontra unidade justamente onde a discografia, observada isoladamente, poderia parecer fragmentada.

Essa talvez seja a característica mais interessante da apresentação em São Paulo. Não importa se determinado espectador chegou ao Maroon 5 por “This Love”, “She Will Be Loved”, “Moves Like Jagger”, “Payphone”, “Sugar” ou “Girls Like You”. O espetáculo encontra uma maneira de acomodar diferentes momentos da carreira dentro da mesma narrativa e transforma essa familiaridade em combustível para a apresentação.

A abertura com a banda mineira Lagum também funcionou como preparação para uma noite construída ao redor de músicas de comunicação imediata com grandes plateias. Quando o Maroon 5 finalmente assumiu o palco, encontrou um público preparado para responder ao repertório, algo que se manteve praticamente sem interrupções até o encerramento.

O Maroon 5 não precisa utilizar São Paulo para provar a dimensão comercial que alcançou. Os números, as arenas e a quantidade de sucessos acumulados já fizeram isso há muito tempo. O que a apresentação no Nubank Parque demonstra é algo mais relevante para uma resenha de show: por trás da gigantesca estrutura pop construída ao redor de seu nome, ainda existe uma banda capaz de utilizar o palco para dar outra dimensão às próprias músicas.

Em uma noite fria na capital paulista, o grupo entregou exatamente o espetáculo que seu catálogo permite construir: acessível, grandioso, nostálgico quando necessário e completamente consciente da força de seus refrões. Talvez não exista surpresa em ouvir milhares de pessoas cantando “She Will Be Loved”, “Payphone” ou “Sugar”. A surpresa está em perceber como, depois de tantos anos, esses momentos continuam funcionando com tamanha facilidade.

Antes de seguir para o Rock in Rio, o Maroon 5 deixou São Paulo lembrando que possuir hits é apenas uma parte da equação. Saber transformá-los em um show ainda é o que faz toda a diferença.

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Redação
Ygor Monroe
Jornalista e crítico musical. Escreve sobre rock há mais de uma década.
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