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Ben Howard percorre diferentes fases da carreira em estreia emocionante em São Paulo

Redação São Paulo

A primeira apresentação de Ben Howard na América do Sul, realizada no último sábado, 26 de setembro, na Audio, em São Paulo, encontrou um público que parecia disposto a compensar em poucas horas todos os anos de espera pela passagem do músico britânico pela região. Com a casa lotada e uma plateia que conhecia profundamente seu repertório, Howard apresentou um show que funcionou menos como uma coleção de sucessos e mais como um percurso pela transformação sonora que marcou sua carreira.

Ben Howard percorre diferentes fases da carreira em estreia emocionante em São Paulo
Ben Howard percorre diferentes fases da carreira em estreia emocionante em São Paulo

Essa escolha é especialmente importante no caso de Ben Howard porque sua discografia mudou consideravelmente desde “Every Kingdom”, álbum de estreia lançado em 2011. O folk acústico que apresentou seu trabalho a uma audiência internacional permanece como parte fundamental de sua identidade, mas deixou há muito tempo de determinar sozinho os caminhos de sua música. Ao vivo, essa evolução fica ainda mais evidente, principalmente na maneira como violões, guitarras, efeitos e camadas eletrônicas são utilizados para construir atmosferas em vez de simplesmente acompanhar as composições.

Howard nunca parece interessado em reproduzir mecanicamente aquilo que está registrado nos discos. Sua técnica particular no violão, marcada pelo uso de afinações alternativas e por uma abordagem percussiva do instrumento, continua sendo uma das características mais reconhecíveis de sua música, mas ganha outra dimensão quando colocada dentro dos arranjos mais densos que passaram a ocupar sua obra. Há momentos em que o instrumento conduz a apresentação e outros em que praticamente se dissolve entre texturas, reverberações e intervenções eletrônicas.

Esse contraste ajudou a estabelecer a dinâmica do concerto na Audio. O repertório percorreu diferentes períodos da carreira sem tentar esconder as distâncias existentes entre eles. O caráter mais acústico de “Every Kingdom” conviveu com a mudança de direção iniciada em “I Forget Where We Were”, disco de 2014 que incorporou guitarras mais carregadas de efeitos e uma atmosfera consideravelmente mais escura. As experiências desenvolvidas posteriormente em “Noonday Dream”, “Collections from the Whiteout” e “Is It?” também apareceram na construção de um espetáculo interessado em explorar as várias identidades que Howard acumulou ao longo dos anos.

O resultado foi um show de contrastes, mas não de rupturas. Mesmo quando parte de uma composição essencialmente acústica para chegar a uma paisagem sonora mais expansiva, Howard mantém uma linguagem facilmente reconhecível. Sua voz continua funcionando como ponto de equilíbrio entre essas diferentes fases, alternando momentos de contenção com interpretações mais intensas sem recorrer constantemente a grandes explosões vocais.

A própria Audio contribuiu para essa proposta. Em vez da distância encontrada em grandes arenas, a configuração da casa aproximou músico e público e favoreceu os detalhes dos arranjos. Em várias passagens, o silêncio da plateia durante os trechos instrumentais permitia que pequenas mudanças de dinâmica fossem percebidas antes de o público voltar a participar diretamente das músicas.

Essa participação, aliás, rapidamente se tornou um elemento importante da apresentação. A resposta dos fãs brasileiros surpreendeu Howard pela familiaridade não apenas com os trabalhos mais populares, mas com diferentes momentos de seu catálogo. As músicas foram acompanhadas em coro durante boa parte da noite, criando uma relação curiosa com um artista cuja performance frequentemente depende de silêncio, espaço e contemplação.

Howard soube trabalhar essa intensidade sem permitir que ela descaracterizasse o espetáculo. Não houve necessidade de transformar a estreia brasileira em uma apresentação excessivamente expansiva ou adaptar sua personalidade de palco ao comportamento da plateia. Pelo contrário, o contraste entre a postura concentrada do músico e a resposta entusiasmada do público acabou criando uma das características mais interessantes da noite.

Foi na reta final, porém, que essa relação encontrou sua manifestação mais evidente. Quando os primeiros acordes de “Only Love” apareceram, a reação foi imediata e a Audio se transformou em um grande coro. A música mostrou que, mesmo depois de tantas mudanças estéticas, o repertório responsável por apresentar Ben Howard ao grande público continua ocupando um espaço particular na relação entre o artista e seus fãs.

O momento poderia facilmente ter funcionado apenas como exercício de nostalgia, mas ganhou outro significado depois de um show construído justamente sobre a evolução do músico. Ouvir “Only Love” dentro de um repertório que também carrega anos de experimentação ajuda a dimensionar a distância percorrida desde “Every Kingdom”. Howard não abandonou aquela identidade, mas também não permitiu que o sucesso inicial se transformasse em uma fórmula obrigatória para o restante da carreira.

Esse talvez seja o elemento que melhor explica a força de sua apresentação em São Paulo. Ben Howard chegou ao Brasil com um catálogo suficientemente amplo para apresentar sua história sem precisar reduzi-la ao período mais comercialmente conhecido de sua trajetória. O folk permanece ali, mas agora divide espaço com ambientação, eletrônica, guitarras processadas e estruturas menos convencionais, características que tornaram seus trabalhos posteriores progressivamente mais particulares.

Depois de anos sem uma apresentação na América do Sul, a estreia poderia naturalmente ser tratada apenas pelo peso da ocasião. O show na Audio, entretanto, encontrou sua força justamente quando deixou esse contexto em segundo plano e permitiu que a música conduzisse a noite. Entre o caráter físico de seu violão, a precisão da banda, as paisagens instrumentais e uma plateia completamente entregue ao repertório, Ben Howard apresentou em São Paulo um retrato bastante completo do artista que se tornou, sem apagar o compositor que o público conheceu no início da década passada.

“Only Love” encerrou simbolicamente essa conexão entre passado e presente. O coro que tomou a casa mostrou a permanência de uma música lançada há mais de uma década, enquanto todo o caminho percorrido até aquele momento deixou claro que Ben Howard não vive artisticamente dela. Em sua primeira passagem pela América do Sul, foi justamente essa convivência entre memória e transformação que deu identidade ao espetáculo.

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Redação São Paulo
Jornalista e crítico musical. Escreve sobre rock há mais de uma década.
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