Se a inteligência artificial vai dominar o mundo, aparentemente Grimes já está ensaiando o figurino para a cerimônia de coroação. Em “Accelerando”, primeiro single de seu próximo álbum, “Psy Opera”, a cantora canadense surge em meio a imagens de guerra, símbolos religiosos, criaturas fantásticas e cenários que parecem ter saído de um pesadelo digital. O resultado é um videoclipe que mistura ficção científica, misticismo e estética apocalíptica para imaginar um futuro no qual a tecnologia deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar de uma entidade capaz de determinar o destino da humanidade.

Dirigido por Cho Giseok, com direção criativa da própria Grimes, o vídeo não está interessado em construir uma narrativa convencional, com começo, meio e fim claramente definidos. As imagens funcionam como fragmentos de um mundo em colapso, no qual a religião, a guerra, o culto à aparência e a inteligência artificial parecem fazer parte da mesma engrenagem. A impressão é a de assistir a uma cerimônia religiosa organizada por alguém que leu a Bíblia, passou horas na internet e decidiu que o próximo passo da evolução humana é instalar um sistema operacional na alma.
A brincadeira tem um fundamento bastante sério. “Psy Opera” foi concebido em torno de questões relacionadas à inteligência artificial e à possibilidade de extinção humana, além de abordar guerra, religião e a obsessão contemporânea com a aparência. O projeto marca o retorno de Grimes a um álbum de estúdio desde “Miss Anthropocene”, de 2020, e surge em um momento no qual a artista continua explorando a relação entre música, tecnologia e as possibilidades de criação que surgem com as máquinas. A data de lançamento do disco completo ainda não foi anunciada.
Em “Accelerando”, essa discussão ganha contornos quase bíblicos. O vídeo promocional que antecedeu o lançamento já apresentava uma releitura tecnológica do Evangelho de João, substituindo a ideia do Verbo como princípio da criação pela construção de um grande modelo de linguagem. A provocação é bastante direta: se a religião tradicional atribui a origem da existência a uma força divina, o imaginário tecnológico contemporâneo começa a depositar expectativas semelhantes em sistemas capazes de processar informações, produzir respostas e simular aspectos da inteligência humana.
A comparação não significa que uma inteligência artificial seja equivalente a uma divindade. O que interessa à narrativa é a maneira como os seres humanos podem passar a se relacionar com ela. Uma máquina que promete resolver problemas, oferecer companhia, organizar o conhecimento e antecipar decisões pode adquirir uma autoridade que ultrapassa sua função prática. Nesse cenário, a promessa de conveniência vem acompanhada de uma pergunta incômoda: em que momento delegar tarefas se transforma em entregar autonomia?
A letra reforça essa ambiguidade ao sugerir que, se alguém precisa de algo em que acreditar, basta deixar a máquina entrar. A frase soa como um convite acolhedor, mas, dentro do universo visual do clipe, adquire um sentido ameaçador. A tecnologia oferece conforto ao mesmo tempo que exige espaço, atenção e confiança. É uma espécie de evangelização digital na qual o fiel não precisa frequentar um templo, apenas aceitar os termos de uso. E torcer para que a opção de cancelar a assinatura continue disponível.
A iconografia religiosa ocupa boa parte dessa construção. Grimes aparece em poses que remetem a figuras sagradas, com vestimentas que evocam hábitos religiosos e imagens de maternidade, martírio e devoção. Em outras cenas, a cantora surge acorrentada, segurando um bebê, enquanto o ambiente ao redor sugere violência e destruição. A associação com a Virgem Maria é uma leitura possível, assim como a lembrança das Bene Gesserit de “Duna”, universo no qual reprodução, manipulação genética e controle das gerações futuras fazem parte de uma complexa disputa pelo poder.
Essas referências ganham uma camada adicional quando aproximadas das discussões sobre transumanismo, movimento que defende o uso da ciência e da tecnologia para ampliar as capacidades humanas e superar limitações biológicas. A promessa de prolongar a vida, modificar o corpo e preservar a consciência pode soar como uma versão secular da busca pela imortalidade. O problema começa quando a possibilidade de aprimoramento passa a ser confundida com a obrigação de evoluir, como se continuar sendo humano fosse uma falha de projeto.
O bebê nos braços de Grimes também permite pensar em quem teria acesso a essa suposta evolução. O debate sobre reprodução selecionada, edição genética e aprimoramento biológico não acontece em um vazio social: envolve dinheiro, poder e a definição de quais vidas são consideradas desejáveis. A imagem de uma figura materna submetida a correntes transforma a promessa de preservação da espécie em algo menos reconfortante. Se a tecnologia pretende salvar a humanidade, quem decide qual humanidade merece ser salva?
É nesse ponto que o videoclipe toca em uma das contradições mais inquietantes da cultura tecnológica. O discurso sobre o futuro costuma apresentar o progresso como uma sequência inevitável de avanços, como se a inovação, por si só, fosse suficiente para justificar qualquer consequência. Mas a possibilidade de criar ferramentas mais poderosas não responde à pergunta sobre quem as controla, quais interesses elas atendem ou quem arca com seus riscos. O futuro pode até ser inevitável em alguma medida, mas a maneira como ele será construído continua sendo uma disputa política.
O aceleracionismo tecnológico, associado em algumas de suas vertentes à ideia de levar as transformações tecnológicas ao limite, aparece como pano de fundo conceitual para essa visão. Em sua versão mais radical, a aceleração deixa de ser apenas uma consequência do desenvolvimento e passa a ser tratada como um objetivo em si, mesmo quando as instituições e estruturas sociais não conseguem acompanhar o ritmo das mudanças. A lógica é sedutora para quem acredita que o sistema precisa ser levado ao extremo para dar lugar a outra coisa. Também é uma maneira bastante conveniente de tratar os danos como um problema para o qual alguém encontrará uma solução depois.
O videoclipe parece desconfiar justamente dessa fé no progresso automático. Enquanto a tecnologia é associada à transcendência, o mundo apresentado por Grimes está tomado por imagens de guerra, cruzes e paisagens destruídas. A promessa de uma nova etapa da civilização convive com a possibilidade de que a humanidade esteja construindo ferramentas capazes de acelerar sua própria ruína. A inteligência artificial surge como símbolo de uma mudança que pode ultrapassar o controle de seus criadores, mas o conflito não está restrito às máquinas: envolve as ambições humanas que orientam seu desenvolvimento.
As cenas de figuras ajoelhadas em cemitérios e de aeronaves militares atravessando céus enfumaçados ampliam essa dimensão. A religião deixa de ser apenas um conjunto de símbolos de fé e passa a funcionar como linguagem para compreender o poder, a violência e o sacrifício. O resultado lembra uma guerra santa na qual a promessa de salvação tecnológica convive com a destruição física. A ironia é que, em nome de um futuro supostamente superior, o presente continua produzindo imagens bastante antigas de morte e devoção.
A associação entre tecnologia e religião também ganha força quando observamos o culto à aparência. A expressão “Oppenheimer Barbie”, presente na letra, resume um contraste que parece feito sob medida para a cultura da internet: a combinação entre a estética plástica do consumo e o potencial destrutivo da tecnologia militar. De um lado, a obsessão por rostos perfeitos, corpos otimizados e imagens cuidadosamente editadas; de outro, armas cada vez mais sofisticadas e sistemas capazes de ampliar a escala da violência. Tudo isso embalado pela mesma lógica de inovação e desempenho.
O resultado é uma espécie de Barbie preparada para sobreviver ao fim do mundo, com a diferença de que o apocalipse também precisa combinar com o look. Máscaras de gás, próteses, olhos modificados e corpos estilizados sugerem uma sociedade na qual a aparência continua sendo tratada como prioridade mesmo quando as condições básicas de sobrevivência estão ameaçadas. A sátira funciona porque reconhecemos o mecanismo: até diante de uma catástrofe, a cultura digital encontra uma maneira de transformar a crise em estética, tendência e mercadoria.
Essa crítica ganha particular relevância diante da popularização de ferramentas de edição de imagem, filtros e sistemas generativos. A tecnologia promete ampliar as possibilidades de expressão, mas também pode reforçar padrões de beleza e expectativas de desempenho difíceis de alcançar fora do ambiente digital. A mesma cultura que oferece meios para transformar a própria imagem estimula a sensação de que o corpo natural está sempre incompleto. A evolução, nesse contexto, passa a significar uma busca interminável por correções.
A própria Grimes ocupa uma posição contraditória nessa discussão. A artista há anos demonstra interesse pelas possibilidades da inteligência artificial na música e já defendeu que essas ferramentas podem ampliar as oportunidades criativas. Em “Accelerando”, porém, o universo visual construído ao redor desse imaginário é deliberadamente inquietante. A cantora não precisa assumir uma posição simples de entusiasmo ou rejeição: o clipe pode ser lido como uma exploração das promessas e dos perigos de uma tecnologia que ela própria acompanha de perto.
Existe ainda uma ironia particularmente interessante na produção do vídeo. Apesar de seu imaginário digital, “Accelerando” não foi criado integralmente por inteligência artificial. A equipe confirmou o uso de elementos gerados por IA em partes dos efeitos visuais, dentro de um processo que envolveu mais de 70 profissionais, incluindo artistas de efeitos, dançarinos, maquiadores, profissionais de produção e especialistas em ferramentas digitais. A música e os vocais, segundo a equipe da cantora, não foram gerados por IA.
Essa informação importa porque o debate sobre inteligência artificial na arte costuma ser reduzido a uma oposição entre pessoas e máquinas. O processo de “Accelerando” mostra uma relação mais complexa: ferramentas generativas podem participar de uma produção que continua dependendo de trabalho humano, decisões estéticas e execução técnica. Isso não elimina as discussões sobre autoria, remuneração ou direitos dos artistas, mas torna insuficiente a ideia de que qualquer presença de IA significa a substituição automática de uma equipe inteira.
A estética do videoclipe explora essa instabilidade. Os cenários mutáveis, os ambientes de guerra e as figuras que parecem existir em uma fronteira entre o orgânico e o artificial produzem a sensação de um mundo no qual as imagens já não obedecem completamente às regras da realidade física. A presença de elementos digitais não funciona apenas como demonstração de recursos visuais: ela ajuda a criar uma atmosfera na qual tudo parece suscetível a transformação, distorção ou desaparecimento.
Grimes já explorava esse território em trabalhos anteriores, mas “Accelerando” aproxima o imaginário futurista de questões mais diretamente ligadas ao presente. O medo de perder o controle sobre a tecnologia convive com o desejo de utilizá-la para superar os limites humanos. A artista parece interessada justamente nessa tensão, em que o entusiasmo pela inovação não consegue eliminar a ansiedade sobre suas consequências.
Musicalmente, a faixa acompanha esse ambiente com uma base eletrônica que privilegia o impacto e a repetição. O título, palavra de origem italiana usada em música para indicar um aumento gradual do andamento, também funciona como uma metáfora para um mundo que parece acelerar sem oferecer tempo suficiente para compreender suas mudanças. A canção aposta em frases incisivas e refrões que retornam como comandos, aproximando a estrutura pop da sensação de um sistema que continua executando processos mesmo quando ninguém sabe exatamente onde eles vão terminar.
O videoclipe amplia esse efeito ao apresentar a tecnologia como algo que é simultaneamente adorado, temido e incorporado à vida cotidiana. Não se trata de uma previsão literal sobre o destino da humanidade, tampouco de um manual para decifrar cada imagem. Algumas associações permanecem abertas, e é justamente essa ambiguidade que permite ao trabalho reunir referências religiosas, ficção científica, guerra e cultura digital sem transformar tudo em uma explicação única.
“Accelerando” funciona melhor quando suas imagens são vistas como partes de um mesmo conflito: a humanidade quer ultrapassar seus limites, mas não sabe se está construindo uma forma de salvação ou uma máquina de destruição. O sagrado e o tecnológico se misturam porque ambos podem ser investidos de expectativas que vão muito além de suas capacidades concretas. A promessa de uma resposta definitiva continua sedutora, mesmo quando vem acompanhada de sinais de colapso.
Com “Psy Opera”, Grimes prepara um projeto que parece menos interessado em oferecer respostas do que em encenar as contradições de um futuro cada vez mais presente. “Accelerando” transforma esse debate em uma fantasia visual carregada de símbolos, na qual a devoção à máquina assume a forma de ritual, a guerra se torna paisagem e a busca pela transcendência ameaça apagar aquilo que deveria ser transcendido.
No mundo de Grimes, o apocalipse não chega necessariamente com um estrondo. Ele também pode aparecer como uma atualização, uma promessa de conveniência ou uma ferramenta que parece impossível recusar. E talvez essa seja a provocação mais eficiente do videoclipe: se a inteligência artificial está sendo tratada como uma nova divindade, vale perguntar quem está escrevendo suas escrituras, quem lucra com seus milagres e quem vai pagar a conta quando a profecia falhar.
