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Iron Maiden transforma 50 anos de história em espetáculo monumental em São Paulo

Ygor Monroe

Cinquenta anos de carreira poderiam servir de justificativa para uma banda viver de nostalgia. Para o Iron Maiden, porém, o passado continua sendo matéria-prima para espetáculos que preservam a grandiosidade do heavy metal sem abrir mão da identidade construída ao longo de décadas. No domingo, 25 de outubro, cerca de 50 mil pessoas lotaram o Nubank Parque, em São Paulo, para uma apresentação que transformou a história do grupo britânico em uma celebração de riffs, melodias, personagens e refrões cantados em uníssono. Parte da turnê “Run For Your Lives”, o show percorreu os primeiros anos da discografia e mostrou por que tantas composições permanecem indispensáveis no repertório da banda.

Iron Maiden transforma 50 anos de história em espetáculo monumental em São Paulo - Foto: Renan Facciolo
Iron Maiden transforma 50 anos de história em espetáculo monumental em São Paulo – Foto: Renan Facciolo

Com pouco mais de duas horas de duração, o espetáculo foi construído como uma viagem pelos nove primeiros álbuns de estúdio, período que concentra algumas das músicas mais importantes do catálogo. A escolha favorece tanto os fãs que acompanham o grupo há décadas quanto quem encontrou no Iron Maiden uma porta de entrada para o heavy metal. Há faixas velozes, passagens progressivas, narrativas épicas e canções que parecem ter sido concebidas para serem cantadas por milhares de pessoas ao mesmo tempo. A produção visual acompanha essa diversidade, ampliando o impacto de um repertório que já carrega força própria.

A noite começou com o Alter Bridge, responsável por preparar o público para o evento. O quarteto norte-americano apostou na precisão instrumental e em um repertório que combinou material recente com músicas consolidadas entre seus fãs. “Silent Divide” abriu a apresentação com peso e andamento cadenciado, enquanto “Addicted to Pain” trouxe uma resposta mais imediata. A sequência também incluiu “Cry of Achilles”, “Fortress” e “Silver Tongue”, antes de o grupo alcançar seus momentos mais fortes com “Metalingus”, “Blackbird” e “Isolation”. A primeira conquistou a plateia com seu riff marcante, a segunda ofereceu uma pausa emotiva, acompanhada por celulares acesos, e a última encerrou o set com um refrão de fácil adesão.

A abordagem mais contida de Myles Kennedy contrastou com a teatralidade esperada do show principal, mas o Alter Bridge cumpriu a função de apresentar um trabalho sólido, apoiado na interação entre as guitarras de Kennedy e Mark Tremonti. A banda mostrou competência e repertório, embora a resposta mais calorosa tenha surgido na reta final, quando as músicas mais conhecidas encontraram um público já concentrado na atração principal.

O Iron Maiden entrou em cena com “Murders in the Rue Morgue”, recuperando a energia dos primeiros anos e dando início a uma sequência que incluiu “Wrathchild” e “Killers”. A abertura valorizou a fase associada a Paul Di’Anno, com composições diretas, andamento agressivo e uma estrutura menos expansiva do que a encontrada nos épicos posteriores. A execução, no entanto, começou um pouco abaixo da intensidade que o repertório prometia. O ritmo pareceu mais contido em alguns momentos, enquanto Bruce Dickinson ainda aquecia a voz para os desafios que viriam adiante.

A impressão inicial não demorou a mudar. “Phantom of the Opera” trouxe uma construção mais elaborada, com mudanças de andamento e longas passagens instrumentais que evidenciaram a interação entre os integrantes. A partir dali, o show encontrou um fluxo mais consistente. O Iron Maiden funciona especialmente bem quando a precisão instrumental encontra o senso de espetáculo, e a apresentação ganhou força à medida que as músicas passaram a explorar essas duas características com maior intensidade.

Em “The Number of the Beast”, a pirotecnia acrescentou impacto a um dos clássicos mais reconhecíveis da banda. Bruce Dickinson assumiu o centro da cena com a presença de palco que o transformou em uma das figuras mais emblemáticas do heavy metal. A interpretação vocal ganhou corpo, e o cantor demonstrou domínio da dinâmica da música, alternando passagens dramáticas com explosões de intensidade. Aos 68 anos, ele continua sendo um frontman capaz de conduzir uma plateia gigantesca sem depender apenas da força dos refrões.

O restante da formação sustentou a dimensão musical do espetáculo. Steve Harris manteve o baixo pulsante que caracteriza a sonoridade do grupo, enquanto Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers dividiram solos, harmonias e riffs com a familiaridade de quem construiu um vocabulário próprio ao longo de décadas. A combinação dos três guitarristas segue como um dos grandes diferenciais do Iron Maiden: em vez de disputar espaço, cada um contribui para a arquitetura das músicas, alternando momentos de brilho individual e passagens em que o conjunto fala mais alto.

Na bateria, Simon Dawson ocupou o posto deixado por Nicko McBrain após sua aposentadoria das turnês, no fim de 2024. A mudança naturalmente chama atenção em uma banda cuja identidade depende tanto das linhas de baixo de Harris quanto da condução rítmica. Dawson manteve a base do repertório com segurança, acompanhando as variações de andamento e a extensão das composições mais ambiciosas. A execução poderia oferecer mais nuances em algumas passagens, mas o baterista demonstrou consistência ao longo de uma apresentação que exige resistência física e precisão.

“Infinite Dreams” foi um dos momentos mais especiais do repertório. A música, recuperada para a turnê depois de décadas sem aparecer nas apresentações ao vivo, trouxe uma composição cheia de transições e contrastes, valorizando o lado progressivo do Iron Maiden. Sua inclusão mostra o quanto a proposta da “Run For Your Lives” vai além de uma sucessão previsível de hits: o grupo também abre espaço para canções que os fãs mais dedicados aguardavam havia muito tempo.

Na sequência, “Powerslave” elevou novamente o tom dramático. A máscara utilizada por Dickinson e as imagens projetadas no telão reforçaram a atmosfera da faixa, cuja construção instrumental ganha ainda mais dimensão quando apresentada em um palco dessa escala. O novo aparato visual é uma das mudanças mais perceptíveis da turnê. Pela primeira vez, a banda utiliza um grande telão digital como elemento central do cenário, substituindo a dependência exclusiva dos tradicionais painéis pintados por imagens que acompanham o desenvolvimento das músicas.

O recurso funciona particularmente bem quando a produção respeita o espaço da música. Em “Rime of the Ancient Mariner”, as imagens sincronizadas, os efeitos sonoros e a longa passagem instrumental criaram uma experiência quase cinematográfica. Inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, a composição exige paciência e atenção, com mudanças de atmosfera que poderiam parecer excessivas em mãos menos experientes. No palco, o Iron Maiden transforma essa complexidade em uma das experiências mais envolventes da noite.

O repertório ainda encontrou espaço para a força direta de “2 Minutes to Midnight” e para a grandiosidade de “Seventh Son of a Seventh Son”. São músicas que evidenciam a capacidade da banda de transitar entre o impacto imediato e estruturas mais longas, sem perder a assinatura melódica. A sequência também demonstra como os primeiros álbuns estabeleceram uma linguagem que continua reconhecível mesmo quando as composições se afastam do formato tradicional de verso e refrão.

A partir de “Run to the Hills”, a apresentação entrou em uma sequência de clássicos que fez o estádio responder com intensidade crescente. “The Trooper” trouxe Eddie ao palco em sua caracterização de soldado, em um confronto cênico com Dickinson que recuperou uma das tradições visuais mais divertidas da banda. O vocalista empunhou bandeiras durante a música, enquanto os solos e as harmonias das guitarras sustentaram um dos momentos mais festivos do espetáculo.

“Hallowed Be Thy Name” retomou a dimensão teatral do grupo. A interpretação de Dickinson acompanhou o clima sombrio da composição, com movimentos que reforçaram a narrativa da letra e a sensação de tensão construída ao longo da música. É um exemplo de como o Iron Maiden consegue transformar histórias em performances sem depender de explicações adicionais: os instrumentos, a voz e a encenação trabalham juntos para ampliar o significado da faixa.

“Iron Maiden” encerrou o repertório principal com a presença do mascote Eddie e uma descarga de energia que preparou o terreno para o bis. Quando a banda retornou com “Aces High”, Dickinson apareceu caracterizado como piloto de caça, retomando a tradição de incorporar personagens às apresentações. A sequência seguiu com “Fear of the Dark”, responsável por um dos maiores momentos de comunhão entre palco e plateia, e terminou com “Wasted Years”, escolha que privilegiou a melodia e a emoção em vez de encerrar a noite apenas com velocidade e peso.

Em “Fear of the Dark”, o público assumiu parte essencial da performance. O coro coletivo atravessou o estádio, acompanhado por braços erguidos, pulos e abraços. A música tem uma estrutura que parece feita para esse tipo de encontro: sua introdução cria expectativa, o riff abre caminho para a explosão e o refrão transforma uma experiência individual em celebração coletiva. Poucas bandas conseguem sustentar esse tipo de resposta com tamanha naturalidade, e o Iron Maiden fez da participação dos fãs um dos pontos altos da noite.

“Wasted Years” ofereceu um encerramento mais melódico, sustentado por um dos refrões mais marcantes da discografia. A escolha combinou com o caráter comemorativo da turnê, que olha para o passado sem transformar o show em uma simples retrospectiva. A música também carrega uma particularidade importante: sua força não depende de pirotecnia, cenários ou aparições de Eddie. Basta a melodia, a execução da banda e uma plateia disposta a cantar cada palavra.

A “Run For Your Lives” demonstra que celebrar cinco décadas não significa necessariamente reduzir a ambição artística. A seleção de músicas, o resgate de faixas menos frequentes e o investimento em uma produção visual mais dinâmica dão ao espetáculo uma identidade própria. Há momentos em que o ritmo parece menos urgente do que nos registros de estúdio, mas a apresentação compensa essas diferenças com arranjos expansivos, presença de palco e uma compreensão precisa do que torna o Iron Maiden tão especial ao vivo.

A banda segue apoiada em uma formação experiente, em composições que resistiram ao tempo e em uma relação com o público construída ao longo de gerações. O show paulistano não precisou depender exclusivamente dos maiores sucessos para funcionar, embora tenha guardado alguns dos momentos mais poderosos para a reta final. A força do Iron Maiden está justamente no equilíbrio entre repertório, identidade visual, excelência instrumental e capacidade de transformar um estádio inteiro em parte da apresentação.

A passagem por São Paulo abriu a sequência brasileira da turnê, que retorna ao Nubank Parque na terça-feira, 27 de outubro, antes de seguir para Curitiba no dia 28. Para os fãs que estiveram presentes no domingo, o espetáculo ofereceu uma celebração abrangente da trajetória da banda. Para quem ainda vai assistir, a promessa é a de um encontro com músicas que continuam vivas no palco, sustentadas por uma produção à altura de sua importância na história do heavy metal.

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Redação
Ygor Monroe
Jornalista e crítico musical. Escreve sobre rock há mais de uma década.
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