Sete anos depois de “Matriz”, Pitty retorna com seu sexto álbum de estúdio, autointitulado, apostando em um recomeço artístico que encontra uma contradição difícil de ignorar: enquanto a cantora continua demonstrando segurança vocal e sua banda sustenta um trabalho instrumental consistente, a composição lírica parece operar muito abaixo do repertório que construiu a relevância da artista no rock brasileiro. Lançado nesta sexta-feira, 16 de outubro, o disco chega cercado pela expectativa de uma nova fase, após um período de afastamento dos palcos e de reorganização pessoal, mas a sensação que permanece ao fim da audição é menos a de reencontro com uma compositora renovada e mais a de acompanhar uma artista de identidade consolidada tentando encontrar uma nova maneira de se expressar sem conseguir transformar essa busca em um conjunto verdadeiramente convincente.

O problema não está na disposição de Pitty para experimentar, tampouco na decisão de abandonar fórmulas que poderiam mantê-la confortavelmente instalada na própria discografia. Pelo contrário, artistas com trajetórias tão reconhecíveis precisam encontrar maneiras de evitar a própria caricatura, especialmente quando carregam décadas de expectativas construídas por um público que conhece seus códigos estéticos, suas provocações e sua capacidade de transformar inquietações em canções de impacto. A questão é que romper com as próprias fórmulas só faz sentido quando existe alguma coisa interessante para colocar no lugar, e é justamente nessa substituição que o álbum encontra suas maiores dificuldades.
Musicalmente, o trabalho está longe de representar um desastre. Pitty continua dona de uma voz expressiva, firme e perfeitamente capaz de sustentar a personalidade que a tornou uma das figuras mais reconhecíveis do rock nacional. Existe segurança na interpretação, enquanto os instrumentais demonstram competência e a produção mantém o repertório em movimento, sem permitir que a experiência se torne inteiramente monótona. Há energia, há estrutura e há uma profissional que conhece profundamente o próprio ofício. O problema é que esses atributos, embora importantes, não conseguem compensar a fragilidade de uma escrita que, em diferentes momentos, parece ter perdido justamente aquilo que deveria orientar toda a construção artística: a capacidade de dizer alguma coisa com personalidade, inteligência e precisão.
Pitty construiu parte considerável de sua relevância justamente por não depender de discursos domesticados. Sua escrita sempre teve uma relação particular com a contestação, com a observação das contradições humanas e com a disposição de incomodar sem precisar transformar cada composição em um manifesto didático. Havia contundência, mas também havia elaboração. Havia ironia, mas ela não precisava sacrificar a inteligência para funcionar. Mesmo quando o discurso era direto, existia uma intenção artística reconhecível por trás das palavras, uma combinação entre atitude, construção narrativa e identidade que ajudava a distinguir suas composições de tantas outras manifestações do rock brasileiro.
É por isso que algumas escolhas deste novo disco provocam uma estranheza tão grande. O que decepciona não é encontrar uma Pitty diferente daquela que conhecemos, mas perceber que essa diferença nem sempre vem acompanhada da mesma capacidade de composição que sustentou sua trajetória. Em vez de ampliar as possibilidades de sua linguagem, determinadas letras parecem reduzir o alcance das próprias ideias, recorrendo a construções excessivamente simplificadas, passagens que soam infantis e discursos cuja intenção parece muito mais evidente do que sua elaboração artística. Em vários momentos, tive a impressão de que as canções estavam preocupadas demais em comunicar uma posição e pouco interessadas em encontrar a melhor maneira de transformá-la em música.
“Amiga” concentra boa parte desse incômodo e se estabelece como o ponto mais fraco do repertório para este crítico. A composição não consegue produzir o impacto que parece buscar e acaba evidenciando uma escrita que, em vez de provocar reflexão, frequentemente se aproxima de uma comunicação excessivamente literal. É difícil não comparar esse resultado com a força de trabalhos anteriores da própria Pitty, sobretudo quando lembramos a capacidade que ela já demonstrou de construir discursos provocativos sem abrir mão de ambiguidade, ironia ou densidade. A comparação com “Máscara”, nesse sentido, não acontece porque uma artista precise repetir eternamente a própria juventude, mas porque a distância entre as duas experiências ajuda a dimensionar o quanto a compositora parece menos inspirada quando tenta transformar suas ideias em letras neste novo momento.
Existe uma diferença considerável entre simplificar uma mensagem para torná-la mais acessível e empobrecer a composição durante esse processo. A primeira escolha pode ser um recurso artístico legítimo, capaz de produzir canções imediatas sem abrir mão de personalidade. A segunda deixa a sensação de que a música está subestimando a inteligência de quem a escuta. Em determinados momentos de “Pitty”, a escrita se aproxima perigosamente dessa segunda possibilidade, com ideias que parecem excessivamente mastigadas e construções que não encontram a sofisticação necessária para sustentar o próprio discurso. O resultado é um repertório que, apesar de nunca parecer inteiramente desprovido de direção, frequentemente soa mais preocupado em ser compreendido de imediato do que em permanecer interessante depois que a mensagem já foi assimilada.
Também existe um problema de naturalidade. Algumas composições parecem organizadas ao redor de intenções muito específicas, como se cada elemento precisasse cumprir uma função previamente estabelecida dentro de um discurso cuidadosamente delimitado. A impressão é de uma escrita excessivamente calculada, na qual a espontaneidade cede espaço a uma construção engessada. Isso não significa que exista algo errado em compor de maneira consciente ou em trabalhar conceitos com rigor, mas a consciência do processo não deveria se tornar tão perceptível a ponto de comprometer a experiência. Quando a intenção aparece com mais força do que a própria canção, o discurso deixa de soar orgânico e começa a parecer uma demonstração de propósito.
Essa sensação também interfere na identidade do álbum. Embora a produção seja competente e os arranjos sustentem a audição, falta ao conjunto uma personalidade sonora suficientemente marcante para transformar o retorno em um acontecimento musical à altura da expectativa construída durante sete anos. O disco não é exatamente monótono, mas existe uma limitação na maneira como suas ideias se desenvolvem dentro de uma mesma zona estética. A impressão é de que os elementos estão bem executados individualmente, porém nem sempre se combinam para criar uma obra com cores, texturas e direções capazes de ampliar o universo da cantora.
Não espero que todo disco precise reinventar o rock, apresentar uma nova gramática musical ou estabelecer um marco definitivo na carreira de quem o assina. Tampouco acredito que um intervalo prolongado entre lançamentos obrigue um artista a entregar sua obra-prima. O tempo de produção não determina automaticamente a qualidade de um álbum, assim como uma pausa pessoal não precisa resultar em uma narrativa grandiosa de renascimento. Ainda assim, quando uma artista retorna após sete anos sem um álbum de inéditas, é natural esperar que esse intervalo tenha produzido algum tipo de transformação perceptível no resultado. Em “Pitty”, a distância entre a expectativa e a entrega acaba se tornando um dos elementos mais difíceis de ignorar.
Entre os momentos mais interessantes estão “Não à Deriva” e “Sobriedade Seletiva”, que encontram no rock mais energético e direto uma maneira de aproveitar melhor a presença vocal da cantora e a competência dos instrumentistas. São composições que funcionam justamente porque parecem compreender com mais clareza o tipo de impacto que pretendem produzir. Existe movimento, existe força e existe uma relação mais satisfatória entre a interpretação e a estrutura musical. Não são suficientes para resolver as fragilidades do álbum como um todo, mas ajudam a demonstrar que Pitty ainda possui recursos para construir momentos envolventes quando os elementos da composição trabalham a favor da experiência, em vez de disputarem espaço com ela.
Minha relação com a discografia da cantora também precisa ser considerada. Nunca fui um admirador particularmente dedicado de Pitty, portanto não entro neste álbum movido pela expectativa de recuperar uma conexão afetiva ou pela necessidade de encontrar a mesma artista de outros tempos. Isso, porém, não significa que a avaliação parta de uma posição de resistência à sua trajetória. Pelo contrário, a distância emocional permite observar com mais clareza os méritos técnicos do trabalho sem confundi-los com uma satisfação automática por reencontrar uma voz conhecida. Reconheço a importância da cantora para o rock brasileiro, sua presença artística e a consistência de sua interpretação, mas esses atributos não me obrigam a considerar satisfatório um disco cuja principal ferramenta de construção me parece tão irregular.
No fim, “Pitty” é um álbum que funciona melhor quando não depende tanto da escrita e que perde força justamente quando suas letras assumem o protagonismo. A produção sustenta o repertório, os instrumentais demonstram competência e a cantora continua vocalmente segura, mas falta ao conjunto a mesma contundência autoral que poderia transformar esses elementos em algo mais relevante. Não considero o disco um desastre técnico, tampouco uma experiência inteiramente descartável. É um trabalho razoavelmente competente, com momentos que funcionam e outros que deixam uma impressão bastante frustrante, especialmente quando colocados diante do histórico de uma compositora que já demonstrou possuir ferramentas muito mais interessantes.
A maior decepção de “Pitty” não está no fato de a cantora ter mudado, mas na sensação de que sua nova fase ainda não encontrou uma escrita à altura da artista que pretende apresentar. Depois de sete anos, esperava-se que esse retorno oferecesse alguma coisa além da manutenção de uma boa performance vocal e de uma produção funcional. O álbum até apresenta sinais de renovação, mas eles não se convertem em uma identidade suficientemente forte para justificar o peso simbólico do lançamento. Para mim, fica a impressão de uma obra que não compromete completamente a trajetória de Pitty, mas também está longe de acrescentar um capítulo especialmente memorável a ela. No balanço geral, é um disco correto, com qualidades técnicas evidentes e problemas autorais difíceis de contornar, que termina sem despertar a vontade de voltar imediatamente à primeira faixa. E, para um retorno cercado por tantos anos de expectativa, isso diz bastante.
Ficha técnica
Título: “Pitty”
Artista: Pitty
Lançamento: 16 de outubro de 2026
Tipo: Álbum de estúdio
Disponível em: Plataformas de streaming
