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Bad Luv fala sobre “O Medo Não Me Parou”, conexão com o público e legado dos anos 2000

Ygor Monroe

A BAD LUV entrou em uma nova fase com o lançamento de “O MEDO NÃO ME PAROU”, segundo álbum de estúdio da banda, disponibilizado nas plataformas digitais pela ONErpm. Com nove faixas, o trabalho aprofunda uma sonoridade que transita pelo post-hardcore e pelo metal moderno enquanto transforma experiências pessoais em uma narrativa marcada por medos, inseguranças, luto, revolta e esperança.

Bad Luv fala sobre “O Medo Não Me Parou”, conexão com o público e legado dos anos 2000
Bad Luv fala sobre “O Medo Não Me Parou”, conexão com o público e legado dos anos 2000

Mais do que reunir músicas produzidas em um mesmo período, a banda concebeu o disco como uma obra que deve ser percorrida em sequência. A trajetória começa em um território mais introspectivo e caótico e, aos poucos, encontra respostas para os conflitos apresentados ao longo do álbum. Para Caio Weber, vocalista e principal letrista da BAD LUV, essa construção foi fundamental para que as nove faixas funcionassem como partes de uma mesma história.

“O álbum começa um pouco mais introspectivo e um pouco mais caótico e, conforme as faixas vão passando, parece que algumas respostas vão aparecendo”, explica Caio. Segundo ele, o percurso acompanha um eu lírico que atravessa situações difíceis e passa a compreender determinados sentimentos conforme a narrativa avança. No fim, a esperança aparece justamente nas coisas mais simples, como a partilha, o amor e os motivos cotidianos para continuar.

A relação com o público também já começou a dar novos significados ao álbum. Segundo Caio, embora a banda naturalmente espere uma boa recepção ao lançar um trabalho, a profundidade das mensagens recebidas após a chegada do disco chamou atenção.

“A conexão das pessoas com essas músicas parece ter sido bem profunda”, conta o vocalista. Ele afirma ter recebido diversas mensagens relacionadas às letras e às experiências retratadas no álbum, algo que considera especialmente significativo por se tratar de um trabalho construído a partir de sentimentos bastante pessoais.

João Bonafé, baixista da banda, acrescenta que a própria reação dos fãs acabou criando uma espécie de seleção espontânea dentro do repertório. Desde o primeiro álbum, “NÓS”, lançado em 2025, o grupo brinca com o conceito de “singles morais”, músicas que não necessariamente foram escolhidas como singles oficiais, mas acabam ganhando esse status por decisão do próprio público.

No novo disco, “Vício” e “Revolta” chamaram atenção justamente por apresentarem caminhos diferentes dentro da identidade da BAD LUV. “É legal ver que a galera está reagindo super bem também a essas propostas diferentes”, comenta João.

Essa disposição para experimentar também está relacionada à maneira como a banda encarou o segundo álbum. Depois de encontrar caminhos que funcionaram em “NÓS”, o grupo decidiu não simplesmente repetir a fórmula. Para João, um dos principais desafios do processo foi justamente evitar que o sucesso do primeiro trabalho se transformasse em uma espécie de molde para o seguinte.

“A gente também superou o medo de arriscar. A gente poderia muito bem ter copiado algumas fórmulas de coisas que deram certo no ‘NÓS’, mas conseguiu continuar trazendo coisas novas e experimentações”, afirma.

A construção de “O MEDO NÃO ME PAROU” começou pouco depois da estreia do primeiro álbum. Muitas das novas músicas surgiram durante a turnê iniciada em setembro de 2025, período em que a banda também recebeu a notícia de que Gee Rocha, guitarrista e compositor da BAD LUV, seria pai. O grupo decidiu então aproveitar o intervalo antes do nascimento de Nara para entrar em estúdio em fevereiro de 2026 e registrar o novo material.

O resultado também trouxe um encontro particularmente simbólico para a banda. A participação de Badauí, vocalista do CPM 22, em “Dias Difíceis”, começou quase como uma brincadeira durante as gravações, mas acabou se transformando em uma colaboração concreta. O convite surgiu depois de um encontro casual entre Badauí e o baterista Vitor Peracetta durante um bloco de carnaval.

Para Caio, a participação representa a aproximação entre diferentes momentos da cena alternativa brasileira. “Não é exagero dizer que o CPM foi a banda mais importante pra essa geração do emo, do hardcore, do punk rock”, afirma. Na visão do vocalista, o grupo teve papel importante na abertura de espaço para artistas daquela cena alcançarem um público maior.

João também enxerga a BAD LUV como parte de uma continuidade daquela geração. Integrantes da banda tiveram suas próprias experiências na cena dos anos 2000, período marcado por nomes como CPM 22, NX Zero e Glória.

“A gente é uma extensão do rolê dos anos 2000. A gente guarda essa sonoridade, mas traz uma coisa nova ali também. Acho que é continuidade, a gente carrega o legado dos caras tatuado na gente”, explica o baixista.

A conexão entre passado e presente, porém, não significa uma tentativa de reproduzir aquela época. “O MEDO NÃO ME PAROU” utiliza referências reconhecíveis para a banda, mas coloca essas influências dentro de uma produção própria e de uma experiência construída a partir das questões vividas pelo grupo atualmente.

Esse caráter pessoal fica especialmente evidente na faixa-título, que também ganhou videoclipe. A música aborda a convivência com doenças consideradas invisíveis, utilizando a imagem de um parasita para representar a depressão. O tema se conecta diretamente ao conceito geral do álbum, que transforma sentimentos difíceis em uma narrativa compartilhada entre banda e público.

“As nove faixas compõem uma só história, tanto liricamente quanto sonoramente”, havia explicado Caio sobre a concepção do trabalho. Para a BAD LUV, essa escolha também funciona como uma forma de defender o álbum completo em um cenário no qual o consumo de músicas isoladas ganhou cada vez mais espaço.

O processo de transformar experiências pessoais em canções também teve impacto nos próprios integrantes. Para Caio, colocar em música sentimentos vividos durante momentos de instabilidade emocional permite revisitar essas situações sob outra perspectiva.

“Quando a gente sobe no palco e toca essas músicas e eu canto essas coisas que eu escrevi em momentos difíceis, tudo isso me ajuda a remontar essas histórias na minha cabeça”, explica. O vocalista entende a própria performance ao vivo como uma continuação desse processo, principalmente pela possibilidade de observar diretamente a reação de quem está do outro lado do palco.

Essa é, inclusive, uma das próximas etapas que mais despertam a curiosidade da banda. As mensagens recebidas pelos fãs já indicam que o disco encontrou diferentes pontos de identificação, mas Caio acredita que existe uma dimensão diferente em observar essas músicas sendo cantadas presencialmente.

“Uma coisa é você receber as mensagens, o que é muito legal. Mas outra coisa é você ver no olhar da pessoa, ela cantando na frente do palco”, afirma.

Para João, a experiência também passa pela confiança adquirida desde “NÓS”. Se o primeiro álbum ajudou a estabelecer uma identidade, o segundo serviu para mostrar que a banda poderia avançar sem ficar presa às próprias fórmulas.

“O MEDO NÃO ME PAROU” nasce justamente desse equilíbrio entre continuidade e transformação. A BAD LUV mantém a conexão com uma tradição da cena alternativa brasileira que ajudou a formar seus integrantes, mas utiliza essa herança como ponto de partida para experimentar novas possibilidades. Ao mesmo tempo, transforma questões individuais em uma obra que encontra no público um espaço para completar seus significados.

No fim, a proposta do disco não está em apresentar respostas definitivas, mas em acompanhar o caminho até elas. É nesse percurso que a BAD LUV encontra o principal elo entre as nove faixas e também entre a banda e quem escuta: reconhecer que medo, insegurança, luto e revolta podem ser experiências individuais, mas não precisam ser enfrentados de maneira isolada.

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Redação
Ygor Monroe
Jornalista e crítico musical. Escreve sobre rock há mais de uma década.
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