Quando o Metallica enfrentou o Napster e mudou a história da música digital

Em 13 de abril de 2000, o Metallica protagonizou um dos episódios mais controversos da história da indústria musical ao processar o Napster, então o principal serviço de compartilhamento de arquivos em formato P2P. A ação judicial não apenas colocou a banda no centro de uma guerra cultural com fãs e artistas, como também marcou o início de uma nova era na forma como a música seria consumida dali em diante.

Metallica e Napster logo
(Image credit: Lars Ulrich: Stephen J. Boitano/Newsmakers via Getty)

O estopim do processo foi a circulação massiva de uma versão demo da música I Disappear, faixa inédita do Metallica à época, que se espalhou rapidamente pela plataforma antes mesmo de seu lançamento oficial. Para o baterista Lars Ulrich, tratava-se de uma violação clara de direitos autorais. Para parte do público, no entanto, a banda estava assumindo o papel de vilã ao tentar barrar o “futuro da música”.

A reação foi imediata e intensa. O Metallica passou a ser acusado de ganância e de agir como um símbolo do capitalismo dentro do rock, enfrentando críticas tanto de fãs quanto de colegas de profissão. O debate, porém, estava longe de ser simples. Embora o Napster tenha sido derrotado juridicamente e declarado falido pouco tempo depois, o modelo que ele ajudou a popularizar abriu caminho para o surgimento das plataformas de streaming que dominam o mercado atualmente.

Lars e Kirk em corte

Com o passar dos anos, muitos dos alertas feitos por Lars Ulrich ganharam novo significado. Hoje, o streaming é a principal forma de consumo musical no mundo, mas também é alvo constante de críticas por remunerar mal os artistas. Em retrospecto, a discussão levantada pelo Metallica sobre a sustentabilidade financeira da música se mostrou mais pertinente do que parecia na época, ainda que a estratégia adotada pela banda tenha sido questionável.

Um dos momentos mais lembrados desse conflito foi um vídeo exibido durante o VMA de 2000, na MTV. Em tom de sátira, o clipe simulava um comercial estrelado por Marlon Wayans, interpretando um estudante universitário que consumia músicas do Metallica via Napster. A cena é interrompida pela chegada de Lars Ulrich, que inicia uma “aula” sobre o conceito de compartilhamento, passando a “dividir” tudo o que pertence ao personagem — desde uma lata de refrigerante até o computador, troféus e até sua namorada.

A frase “estou só compartilhando dez anos de groupies com você, playboy” se tornou uma das mais icônicas do vídeo, que terminou com o slogan irônico: “Napster: compartilhar só é divertido quando não é com as suas coisas”. Apesar do tom autodepreciativo, a recepção do público foi fria, e o vídeo acabou alimentando ainda mais a rejeição à postura da banda.

O Napster, por sua vez, não perdeu a chance de responder. No mesmo VMA, o cofundador da plataforma, Shawn Fanning, subiu ao palco vestindo uma camiseta do Metallica e tocando For Whom the Bell Tolls, ironizando a situação ao afirmar que a camisa havia sido “compartilhada por um amigo”.

MVA

No fim das contas, o Metallica venceu a batalha judicial, mas a cultura do compartilhamento e, posteriormente, do streaming, venceu a guerra. Curiosamente, décadas depois, a banda é amplamente reconhecida como uma das que mantêm a relação mais próxima e respeitosa com seus fãs dentro do metal. O episódio do Napster ainda é lembrado em debates online, mas parece definitivamente superado pelo grupo.

Assim como aquele vídeo estranho e datado dos anos 2000, o processo contra o Napster ficou como um retrato de um momento de transição caótico — quando a música mudou para sempre, e ninguém ainda sabia exatamente como lidar com isso.

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